29/07/2019

A noite escura e mais eu, por Lygia Fagundes Telles

Não sou muito boa falando sobre contos; a ideia de uma história curta, muitas vezes sem início, meio e fim definidos nunca me de dar pulinhos de empolgação. Eu, apreciadora das séries mais longas pelo apego à trama e aos personagens, aquela que assiste um seriado de treze temporadas em um mês mas não consegue parar para ver um único filme se sabe que ele não tem continuação. Gosto de continuidade e desenvolvimento.

Porém, dessa vez decidi me arriscar na coletânea da Lygia Fagundes Lopes, que ganhei da minha ex-namorada.

Em A noite escura e mais eu, Lygia aborda temas que vão desde o adultério até a eutanásia, homossexualidade e abandono. Somos apresentados a um cachorro de circo que se transmuta para viver com sua amada, mas a chama de seus sentimentos derrete a vela que compõe os dela.

Mais a frente, Maria Leonor aparece procurando um amigo (ou um executor?), nos instigando a pensar sobre os limites do livre arbítrio, sobre a solidão e principalmente sobre o medo não da morte, mas do que a antecede.

Em A Rosa Verde, uma criança narra a desgraça da família com aquele jeito aleatório e não-intencionalmente maldoso que toda criança tem. O pai e a mãe morreram, mas ela só chora ao ser chamada de órfã, no resto do tempo observa a vida dos insetos, come jaca com o avô e acaricia a terra na fazenda onde mora com a tia cabeça-de-vento.

Antes de aparecer a tal rosa, uma mãe conta a história da morte da filha; filha essa que viveu um amor ainda não cabível às opiniões da mãe; um amor intenso em meio aos livros, no chão do quarto, ao som de A Whites Shade of Pale.

Finalizando a obra prima, o anão de jardim chamado Kobold narra a história da casa em que findou sua vida, e assim somos também apresentados a uma esposa homicida e uma empregada conivente. Kobold é astuto e tece comentários pertinentes sobre a natureza e a estupidez humana.


Fiquei flamejante. Penso agora que flamejei demais e o meu amor que parecia feliz acabou se assustando, era um amor frágil, assustadiço. Tentei disfarçar tamanha intensidade, o medo de ter medo.Vem comigo! eu queria gritar e apenas sussurrava. {...} Me segurei, ah, o cuidado com que montava nesse corpo que se fechava, virou uma concha. (O crachá nos dentes)
Na noite em que ela dormiu depois da ceia, ele tomou-a nos braços para levá-la até o quarto. Em meio da sonolência ela se lembrava apenas de ter perguntado de qual daqueles bolsos ele ia tirar a sua morte. (Boa noite, Maria)
Deitou-se com sua camisolinha e amanheceu aquela imagem que eu enfeitava tentando botar ordem na desordem da morte, morte é só desordem, sei como Gina deve estar. E sei também como elas se amavam, andei lendo sobre esse tipo de amor. (Uma branca sombra pálida)
Dê um passo em frente aquele que conseguir escapar da agressividade num mundo onde a marca (principal) é a da violência. (Anão de jardim)
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